Seja um bom menino – A Lenda de Krampus

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Seja um bom menino – A Lenda de Krampus

A Lenda de Krampus

E se fosse te dado uma nova chance de fazer tudo certo? O que você faria?

M arco se ajeitou na cadeira, cruzou a perna e pousou as mãos no colo sem saber muito bem o que fazer com elas. O recrutador o encarou como se observasse um peixe em um aquário. Acariciou a gravata, recostado em uma poltrona atrás de uma mesa que deveria valer mais do que a quitinete de Marcos que não sabia se encarava ou desviava o olhar do entrevistador. Afinal nunca imaginou que na véspera de Natal, o chamariam para uma entrevista. Um belo presente natalino que não deixaria escorrer pelos dedos, feito as últimas chances que desperdiçou. Precisava daquele emprego. Por ele, por Nina e Beatriz.

— Tem experiência como arquivista? – o recrutador olhava o currículo que Marco enviou para a L.Lawyers Advocacia há mais de seis meses. — Trabalhei como arquivista em uma imobiliária por dois anos. – sua voz saiu firme. Então se permitiu respirar. — É casado? — Há três anos. Nina, minha esposa, teve que deixar o emprego para tomar conta da nossa Beatriz. Menos de um ano e já tem passado por maus bocados. Tem leucemia. – droga Marco! Falou demais. Leu dias atrás um artigo que orientava os candidatos a não responderem mais que o necessário. E muito menos chorarem seus problemas para o entrevistador. Duas regras que acabara de quebrar. — Quais seus planos para o próximo ano? – o entrevistador encarou Marcos mais uma vez. Vestia um terno cinza impecável, o oposto de Marco. Nunca precisou de um, por isso teve que pegar o do vizinho. Um número maior que o dele. Devia estar perecendo um defunto. — Estar empregado, voltar para a faculdade e crescer na empresa. – falou ao estufar o peito e erguer a cabeça. Também lera no artigo que se deve mostrar autoconfiança. O entrevistador acenou em positivo com a cabeça. — E para hoje, tem planos? — Hoje? Não, por quê? – foi inevitável não arregalar os olhos. — Parabéns. – o entrevistador estendeu a mão para Marco que a pegou sem muita convicção. — A vaga é sua. Pode começar hoje?

Depois de descer dez andares do arranha-céu, Marco se olhou no espelho do elevador e percebeu que seu cabelo exibia pontas desgrenhadas que em nada combinavam com o paletó de seu vizinho. Mas apesar disso, um sorriso bobo grudou em seu rosto. Considerava-se o um sortudo, afinal acabara de conseguir um emprego. Desceu no andar dos recursos humanos onde entregaria alguns documentos. Segundo Jordan, o recrutador, precisavam de alguém urgente para organizar antigos arquivos, pois assim que começasse o próximo ano, sofreriam uma auditoria e tudo deveria estar em ordem. Marco enfiou a mão no bolso para pegar o celular e contar a novidade a Nina. Ela ia ficar orgulhosa. Mas sua mão achou outra coisa no bolso da calça que o lembrou que precisava agradecer alguém.

Com cuidado, puxou o chaveiro vermelho em forma de bola de Natal e continuou a caminhar pelo corredor, decidido que quando acabasse o expediente, procuraria o homem que lhe deu aquilo. Um velho mendigo com uma barba cinzenta e comprida que o parara na porta do prédio a cerca de uma hora atrás, dizendo que queria lhe dar um presente. Marco perguntou por que e o maltrapilho disse que na noite anterior, ele o chamara em suas orações e pediu um emprego a qualquer custo. Mas ao entregar o souvenir advertiu que Marco deveria se comportar, ser um bom menino e não ceder as tentações. Marco riu, aceitou o presente, lembrando só de na noite anterior ao ver uma estrela cadente, pedir ao “Papai Noel” que se lhe desse um emprego, desta fez faria tudo do jeito certo. Uma antiga mania que trouxera da infância, apesar de já estar crescido para acreditar no “bom velhinho”. Antes do mendigo ir embora, Marco perguntou seu nome e onde morava. “Claus Krampus” disse o velho barbado que afirmou morar nas imediações.

Após preencher alguns formulários e dar a boa notícia a Nina, o dia correu como esperado. Não era nada de excepcional, mas diante das dívidas que se acumulavam devido a avalanche de decisões precipitadas que o levaram aquela situação, se sentia um afortunado ao conseguir um trabalho naquela época. E pelo que dissera Jordan, com grandes chances de efetivação após o período de experiência. Se fizesse tudo certo, logo destrancaria a faculdade, poderia se candidatar a um cargo melhor e dar uma boa vida a Nina e Beatriz. Mas de imediato, ter um emprego já era mais que suficiente, pois a L.L Lawyers oferecia plano de saúde. Agora poderiam tratar a leucemia de Beatriz com tranquilidade.

Quando o relógio deu seis horas, ainda faltavam uns dez arquivos para Marco terminar a letra “C” e mesmo sendo véspera de Natal, se impôs que só sairia dali quando completasse ao menos aquela letra. Resolveu fazer uma parada e foi até o outro lado do andar pegar um café. Enquanto selecionava um expresso curto, foi impossível não ouvir a conversa na sala ao lado.

— Vamos repetir tudo então. Depois de esfaqueá-la, o senhor foi para o lado contrário do corpo, deixou a faca em cima da mesa e então abriu a porta com as mãos sujas de sangue, correto? – falou uma voz feminina. — Eu estava atordoado, sem saber o que fazer, para onde ir. Eu só queria sair dali. – respondeu outra voz. De um homem bem velho por sinal. — Vocês podem concertar isso, não podem? Afinal é por isso que os pago. E pago bem. — Fique calmo, já resolvemos tudo. Quando a polícia perguntar já sabe o que dizer. Na hora que aconteceu, estava no bar com nossa querida Karen. Está claro? — Sim, está. E quanto as digitais, o sangue? —O senhor só precisa dizer que estava com a Karen. O resto é conosco. – frisou a mulher com a voz tão gelada quanto um iceberg.

Marco arriscou uma olhadela e pelo vão da porta pode ver de costas um senhor vestido em um terno que colocaria o de Jordan no chinelo. Atrás dele, havia quadros que estampavam o que pareciam ser antigos cartões de Natal. Talvez parte da decoração de final de ano do escritório. Um deles chamou a atenção. Formavam uma sequência de duas gravuras, onde em cada, uma estranha figura acompanhava o Papai Noel. A figura tinha chifres, uma língua pontuda e cascos no lugar dos pés. Enquanto o Papai Noel dava presentes as crianças, a criatura as puxava por uma corrente e lhes castigava com um tipo de ramo cheio de gravetos. Havia frases acima das duas gravuras. A da primeira não conseguia enxergar. A da segunda estava em uma língua que Marcos não conhecia, mas dizia: “Brav Sien”.

— Marco? – chamou uma voz conhecida. Ao se virar deu de cara com Jordan e quase derrubou o café. — Olá Sr. Jordan, me desculpe. Fiz uma pausa e vim apenas pegar um café e aí eu... — Tudo bem Marco, está tudo bem. – disse o recrutador com a mão no ombro de Marco. — Quero apenas te fazer uma proposta. Fiquei comovido com o que contou sobre sua filha, por isso queria lhe propor algo para ganhar um extra nesse Natal. Eu faço parte de um site, na verdade um clube, onde fazemos alguns jogos de fim de ano. A única coisa que precisa fazer é ir a um quarto de hotel e entregar um envelope para alguém. Só não pode fazer perguntas e nem saber do que se trata. Mas garanto que não é nada ilícito. Apenas uma brincadeira de fim de ano, tipo um amigo secreto no qual será o mensageiro. Se topar, leva dois mil. Mil na sua mão agora e mil na volta. O que acha? — Eu não sei. Já consegui o emprego, está tudo bem. – dois mil parecia um bom dinheiro para algo tão simples. Será que devia aceitar? Afinal aquela era uma firma de advocacia séria. E o que ouviu na sala ao lado, devia ser apenas mais um dos casos difíceis com que os advogados tem de lidar. — Vamos Marco, dois mil. Irá garantir um belo Natal para sua esposa e filha. Afinal qual seria o problema. Era só entregar um envelope. — Está bem, eu aceito.

Uma hora mais tarde, Marco entrava em um quarto de hotel com um envelope em mãos, que deveria entregar a um homem, o qual não sabia o nome, mas que segundo Jordan o esperava. Marco tinha o cartão de acesso da porta e teve de passar pela entrada de serviço do prédio, pois não deveria ser visto. Mesmo assim, ao subir no elevador e passar pelo corredor, viu que câmeras o observavam. Dentro do cômodo, o qual recebeu ordens expressas de não acender a luz, deveria deixar o envelope em cima de uma mesa e sair. Apenas isso. Mas assim que colocou o envelope na mesa, ao se apoiar nela, algo melecou sua mão. Com o celular acendeu a lanterna e o que viu o fez tropeçar e quase cair. Sangue. Desesperado ignorou todas as regras e apertou o interruptor. Com as luzes acesas, viu o corpo de uma mulher ensanguentado com diversas facadas deitado em uma cama. Na mesa onde colocou o envelope, uma faca jazia também ensanguentada. Marcos correu para a porta, enfiou a mão suja de sangue na maçaneta e ao abrir percebeu que seu mundo acabava ali. Para sempre.

— Mãos onde eu possa ver! – gritou o policial de arma em punho, acompanhado de mais três.

Eles o deitaram no tapete da suíte, o algemaram e o levaram para o camburão sem sequer ler seus direitos. Dias depois, já na penitenciária enquanto aguardava o dia do julgamento por um crime que não cometeu, no refeitório, um velho maltrapilho de barba cinzenta sentou do lado de Marcos.

— Eu lhe avisei filho. Disse que não devia ceder as tentações. Você não foi um bom menino.

Depois, o velho se levantou e deixou dois cartões postais em cima da mesa. Ao vê-lo de costas, Marcos percebeu que pequenas protuberâncias pontudas saíam em meio aos cabelos mau lavados do velho e os pés faziam barulhos como cascos de cavalo. Pegou os postais e os examinou com atenção. Eram as mesmas gravuras que viu na sala do escritório de advocacia no dia que começou empregado e terminou preso. E lá estava a criatura demoníaca ao lado do Papai Noel, castigando as crianças. Na segunda gravura, em baixo da Frase “Brav Sien”, estava a tradução escrita a mão: “Comporte-se”. E na primeira, a que não conseguira ler da primeira vez, havia os dizeres “Gruss vom Krampus”, onde abaixo estava a tradução: “Saudações de Krampus”. E esta foi a última vez que Marco agiu sem pensar. Pois se o fizesse mais uma vez sabia que Krampus o acharia.

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