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Ainda lembro como se fosse hoje o dia em que a conheci.

 
E stavam por toda parte, de todas as cores, malhados, negros como a noite ou brancos como a neve, uma verdadeira comunidade felina espalhada por fontes, jardins e chafarizes que se estendiam pela propriedade que dentro dos muros parecia muito maior do que por fora. Como se ao entrar, eu pisasse em outro mundo onde o sol iluminava e era sempre dia, com céu azul e nuvens de algodão. Alguma espécie de Éden ou vale mágico em meio ao caos de São Paulo, sempre acinzentado, chuvoso e triste. Eu adorava aquele lugar, porque era bonito e me protegia de João Porrete. Ali era meu refúgio, um lugar mágico que parecia parado no tempo onde tudo era alegria e tranquilidade.

E foi ali, naquele recanto onde o instante congela e alma se aquieta que conheci o sentimento mais forte que nunca pensei existir. Eu estava me refrescando, tomando água direto de um dos chafarizes em formato de querubim, quando percebi algo fazer sombra diante da luz do sol que parecia brilhar eternamente na Mansão dos Gatos. Antes que pudesse levantar a cabeça para olhar, senti a quentura tenra de outro ser colar ao meu rosto e tomar água da mesma bica que eu. Por uma fração de segundos nossos lábios se tocaram, mas eu não podia vê-la. Apenas enxergava círculos e pequenos pontos brilhantes com o rabo de olho, que dançavam de maneira harmônica no ar, como um balé de fadas regido pela mãe natureza.

Eu me afastei e então tive a visão mais incrível que um menino da minha idade poderia ter. Ela vestia um vestido estampado com flores rosas e roxas, tão suaves e translúcidas quanto o azul de seus olhos. Os cabelos loiros que terminavam em cachinhos balançavam perante a brisa morna das terras encantadas no meio do caos. Se não tivesse tocado seus lábios com os meus, diria que era um anjo, mas sabia que era real. Ela sorriu de maneira tímida e sapeca e com espontaneidade das meninas me cantou seu nome.

— Brigth – sussurrou uma voz doce como mel. — Tesla – respondi com uma voz que quase engasgou na garganta como se engolisse a seco uma bolacha de água e sal.

Então ela correu para o meio do jardim. Parou entre os arbustos e virou-se para trás. Olhou-me com os olhos que pareciam um oceano de tamanha imensidão azul e continuou para dentro da terra mágica que de alguma forma coexistia com o mundo real onde viviam os carros, a fumaça, o céu cinza, os adultos e João Porrete e sua gangue.

Eu sabia que logo teria que voltar ao mundo do qual não gostava, mas no momento apenas a seguiria e brincaria de esconde–esconde com a menina anjo que fizera muito pior que João Porrete. Ela havia acertado meu coração como um cupido travesso e o roubara de mim. Só me restava ir atrás dela, tentar recuperá-lo e quem sabe, se tivesse sorte, reaver o beijo roubado que ela me tomou.

O diário de Tesla.


 

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